29 janeiro 2008



UM DIÁLOGO COM BAKHTIN E PROUST SOBRE DOSTOIÉVSKI E JACQUES-EMILE BLANCHE


Irene Rubim
Liliane dos Anjos
Neiva Bonfanti Rosa


O tema central da obra de Mikhail Bakhtin [1] é um novo gênero literário, marcado pela presença de várias vozes, que ressoam no texto e não se sujeitam a um narrador centralizador, como acontece com o romance tradicional monofônico. Trata-se então do romance polifônico ou carnavalesco. O elemento cômico-sério aparece nessa teoria e Bakhtin deixa patente que não é o cômico que se torna sério, mas o contrário. O sério é que se torna cômico, na medida em que os símbolos oficiais são destronados de seu pedestal, postos em contigüidade com manifestações e símbolos culturais populares.

Segundo Bakhtin, Dostoiévski é o criador do romance polifônico, que substitui a unicidade de um pensante pela multiplicidade de sujeitos, vozes e olhares sobre o mundo. O teórico afirma que, no escritor russo, a idéia enquanto objeto de representação ocupa importante posição, mas não é ela a heroína de seus romances. Seu herói é o ser humano e o romancista representa “o homem no homem”. Para ele, não há idéias, pensamentos e teses que tenham existência própria.


Por isso, representa a interação de consciências no campo das idéias, onde essas passam a ter vida, ou seja, a consciência nunca se basta por si mesma. Podemos dizer que ele apresenta em forma artística uma espécie de sociologia das consciências no plano da coexistência. Da mesma forma, as várias consciências também são perceptíveis no artigo de Marcel Proust para analisar a obra de Jacques Emile Blanche. [2] Nele, as várias vozes sociais se defrontam, se entrelaçam, manifestando diferentes pontos de vista:

Essa Auteil de minha infância — de minha infância e de sua juventude — evocada por Jacques Blanche, compreendo que ele se reporte a ela com prazer como a tudo o que emigrou do visível ao invisível, a tudo o que, convertido em recordações, confere um tipo de mais –valia ao nosso pensamento... (PROUST, 1994, p. 41).

Tudo isso que, em páginas que são maravilhas de inteligência e melancolia, Jacques Blanche diz a propósito de Manet — a quem seus amigos achavam encantador, mas não levavam a sério, não o ‘tinham por tão capaz’ — eu o vi produzir-se para Blanche (PROUST, 1994, p. 42).

Calma, Jaques, não o atormente, não o excite. recomponha-se, meu filho, procure ficar calmo, ele não pensa sequer em uma palavra do que diz: beba um pouco de água fresca, em pequenos goles, contando até cem (PROUST, 1994, p. 44).


Como traço característico da obra de Dostoiévski, percebemos a sua vontade artística na multiplicidade de vozes. Também seria possível determinar com exatidão a imensa autonomia e a plenivalência de cada voz. As vozes são “convicções ou pontos de vista acerca do mundo” LUNATCHARSKY (apud BAKHTIN 2002, p. 33) e os romances, diálogos esplendidamente construídos, nos quais a independência das vozes particulares é excitante. A compreensão precisa do “psicologismo”, como visão realista-objetiva da coletividade contraditória das psiques dos outros leva Kirpótin à correta compreensão da polifonia do escritor russo. Suas contradições concretas e a personalidade biológica e social, sua dicotomia ideológica, são incorporadas no processo de construção do romance polifônico:

a história de cada ‘alma’ individual é dada... em Dostoiévski não de modo isolado mas juntamente com a descrição das inquietações psicológicas de muitas outras individualidades [...] a narração da primeira pessoa, na forma de confissão, ou da pessoa do autor-narrador, seja como for, vemos que o autor parte da premissa da isonomia das personagens coexistentes, que experimentam inquietações. Seu mundo é o mundo da multiplicidade de psicologias que existem objetivamente e estão em interação, fato que, na interpretação dos processos psicológicos, exclui o subjetivismo tão próprio da decadência burguesa. (KIRPÓTIN apud BAKHTIN, 2002,p.38).


Dostoévski tem a capacidade de auscultar reações dialógicas em toda parte, em todas as manifestações da vida humana consciente e racional. Para ele, onde começa a consciência, começa o diálogo. Em seu ensaio sobre a obra de Blanche, Proust mostra que, assim como nos romances do escritor russo, o pintor francês ausculta reações dialógicas em toda parte, em todas as manifestações da vida humana, consciente e racional, percebendo que onde começa a consciência, começa o diálogo.

Enquanto os pintores ilustres da época pintam artistas célebres, desprovidos de méritos e hoje tão esquecidos quanto Benjamin Constant, Blanche pinta os amigos. A enumeração dos retratos que ele produz “basta para mostrar que também na literatura era o futuro que ele descobria, que ele elegia. [...] Blanche trazia em si, como todos os homens seguros do futuro, essa perspectiva de tempo em que é preciso saber se situar par observar as obras” (PROUST, 1994, p. 50). De fato, após vinte anos, as mesmas senhoras que antes faziam pouco da obra de Blanche, estão muito felizes por colocar à sua direita um de seus trabalhos, ou um de seus retratados, como André Gide, apenas por estarem na moda. Conforme as páginas reunidas em Propos de paintre: de David à Degas, livro para o qual Proust escreve o prefácio:

O defeito do Jacques Blanche crítico é refazer o inverso do trajeto que o artista cumpre para se realizar: é explicar o Fantin ou Manet verdadeiro, aquele que só encontramos em sua obra, com o auxílio do homem perecível, semelhante a seus contemporâneos, cheios de defeitos, a quem se ligava uma alma original, contra quem ela protestava, ele quem tentava se separar, libertar-se por meio do trabalho (PROUST, 1994, p. 52).


A perspectiva sob a qual Blanche se posiciona, nem sempre na referida obra, não é o verdadeiro ponto de vista da arte, mas o da história: “Apenas enquanto Saint-Beuve põe em prática esse ponto de vista realmente, o que faz com que ele classifique bem amiúde os escritores de sua época [...], Jacques Blanche só o adota por um instante, para multiplicar os contrastes” (PROUST, 1994, p.54 ). Ao contrário de Saint-Beuve, os escritores e pintores que Blanche admira mais tarde serão grandes figuras no mundo artístico, a exemplo de Manet e Pablo Picasso.


Todas essas vozes, cantando diversamente o mesmo tema, constituem a polifonia bakhtiniana, que desvenda o multifacetado da existência e a complexidade dos sofrimentos humanos. Para Dostoiévski, o mundo monológico uno da consciência do autor se transforma em “elemento do todo; aquilo que era toda a realidade torna-se aqui um aspecto da realidade; aquilo que ligava o todo — a série do enredo e da pragmática e o estilo e o tom pessoal — torna-se aqui momento subordinado” (BAKHTIN, 2002, p. 45).


Um conflito entre a inconclusibilidade interna das personagens e do diálogo e a perfeição externa do texto resguardam os princípios do romance polifônico. O diálogo se adentra no interior do romance, tornando-o bivocal, penetrando em cada gesto, em cada movimento mímico do herói, e constituindo o micro-diálogo, que determina as particularidades do estilo. Blanche também deixa suas marcas na história literária; demonstra criticamente o que pensa, vindo a ser admirado como pintor e escritor. Seus personagens traduzem as inquietações da alma humana e contradições de uma sociedade cujo padrão de beleza está muito aquém do que o escritor–pintor considera.A noção de polifonia, observada por Bakhtin na obra de Dostoiévski, guarda semelhanças com a proposta de “multiplicidade’, defendida por Italo Calvino. [3] Ambas dialogam com a obra de Mario Quintana, caracterizada por apresentar uma “diversidade sempre fiel a si mesma”, [4] uma vez que o poeta alegretense mostra-se sempre o mesmo


na sua multiplicidade de faces. Devido a isso, os temas que anuncia em seus primeiros livros mantêm-se inalterados até os últimos, numa fidelidade digna de nota. E, explorando universos imaginários ou denunciando o que acontece à frente de sua janela, é sempre o individualista seguro de suas posições, mas suficientemente autêntico e generoso, não hesitando em empregar sua palavra em prol de um mundo mais justo e harmônico (ZILBERMAN, 2001, p. 440).


Diversa é a carreira de Quintana, como jornalista, cronista do cotidiano e tradutor. É ele quem traduz para a língua portuguesa os quatro primeiros volumes do romance de Proust: À la recherche du temps perdu. Seus “quintanares” deixam margens para variadas interpretações, como a memória proustiana ou a identidade do sujeito moderno. No soneto “Auto-Retrato”, [5] por exemplo, buscando “sua eterna semelhança, ele diz que se pinta nuvem, se pinta árvore, se pinta coisas já esquecidas ou ainda inexistentes, mas conclui que, afinal, só restará de sua lida Um desenho de criança.../Corrigido por um louco!” (BECKER, 1997, p. 51). [6]

[1] QUINTANA, Mario. Auto-retrato. In: QUINTANA, Mario. Apontamentos de história sobrenatural. Rio de Janeiro: Globo, 1987. p. 22.


[2] BECKER, Paulo. O poeta pintor. In: BARBOSA, Márcia Helena Saldanha; SCHMIDT, Simone Pereira. MARIO QUINTANA. Cadernos Porto & Vírgula, Porto Alegre, n. 14, p. 49-53, 1997.


[3] CALVINO, Italo. Multiplicidade. In: CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 115-138.

[4] Cf. ZILBERMAN, Regina. Mario Quintana: Diversidade sempre fiel a si mesma. Revista de Psicanálise, Porto Alegre, v. 8, n. 3, p. 419-440, 2001.

[5] QUINTANA, Mario. Auto-retrato. In: QUINTANA, Mario. Apontamentos de história sobrenatural. Rio de Janeiro: Globo, 1987. p. 22.

[6] BECKER, Paulo. O poeta pintor. In: BARBOSA, Márcia Helena Saldanha; SCHMIDT, Simone Pereira. MARIO QUINTANA. Cadernos Porto & Vírgula, Porto Alegre, n. 14, p. 49-53, 1997.

PINTURAS DE JACQUES-EMILE BLANCHE


Marcel Proust (1871-1922)


La princesse Jean de Broglie