29 janeiro 2008

A OBRA DE ARTE NA ERA DE SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA

Adriane Vargas Pereira Finoketti
Alda Valéria de Souza Lopes
Cádia Dorneles Carús

Este ensaio, publicado em 1936, é um dos mais conhecidos e citados textos do filósofo alemão Walter Benjamin. Discute as novas potencialidades artísticas — essencialmente numa dimensão política — decorrentes da reprodutibilidade técnica.

Em meio ao turbulento período europeu entre a primeira e a segunda guerra, numa reviravolta de valores políticos, morais, sociais, culturais e até religiosos, causados pelo fascismo e pela crise econômica, Benjamin concebe “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”.[i] Anos que deixaram, como herança, a transformação do “belo” em “lucrativo”, alterando o destino das obras de arte de todos os tempos.

Quando Benjamin empreendeu a análise da arte na época de sua reprodutibilidade técnica, esse modelo de reprodução ainda estava em seus primórdios. O filósofo orientou suas investigações de forma a dar-lhes valor de prognósticos. Remontou às fundamentais da reprodução técnica e, ao descrevê-las, previu o futuro da cultura de massa.

“Em sua essência, a obra de arte sempre foi reprodutível. O que os homens faziam sempre podia ser imitado por outros homens”, conforme nos explica Benjamin (1994, p. 166).

Muito além do poder imitar, a capacidade da imitação faz parte da condição cultural humana. A reprodução técnica não falsificaria, como a reprodução manual. Ela pode acentuar aspectos do original (fotografia, câmara lenta...), mas, de qualquer modo, desvaloriza o aqui e o agora da obra de arte. A aura, momento captado, é o que constitui a autenticidade da obra.

A autenticidade da obra de arte, então, é "a quintessência de tudo o que foi transmitido pela tradição, a partir de sua origem, desde sua duração material até o seu testemunho histórico" (BENJAMIN, 1994, p. 168).

A reprodutibilidade técnica transforma a obra de arte em um fenômeno de massa que pode ser visto e ouvido em qualquer espaço e a qualquer hora, pois retira a obra de seu local tradicional e de sua historicidade, conferindo-lhe atualidade.

No entanto, com o aparecimento e desenvolvimento de formas de arte como a fotografia, deixa de fazer sentido distinguir entre o original e a cópia. Isso traduz-se no fim dessa “aura”, liberando a arte para novas possibilidades, tornando seu acesso mais democrático e permitindo que contribua para uma “politização de estética”, que contraria a “estetização da política”, típica dos movimentos fascistas e totalitários dominantes na época.

Benjamin procura compreender e analisar os efeitos que a fotografia e o cinema haviam surtido sobre o mundo das artes. E é no cinema que a arte se transforma radicalmente, pois, desde sua gênese, ele é destinado a ser consumido em massa. Um indivíduo não pode comprar um filme e tê-lo fechado e exclusivo para si. Para compensar seu investimento, pois sua produção envolve dezenas de especialistas, materiais e tecnologia bastante sofisticada e cara, fazem-se necessárias centenas de pessoas para assisti-lo.

Segundo Benjamin, enquanto, diante de uma pintura, o espectador abandona-se às suas associações, diante de um filme, suas idéias são interrompidas pela mudança constante de imagens fragmentadas. Também na literatura, observa-se que, durante séculos, houve uma separação rígida entre os escritores e um pequeno número de leitores. No fim do século passado, a situação começou a modificar-se, a partir da expansão do letramento.

O escritor argentino Julio Cortázar, em 1976, explanando reflexões sobre Edgar Allan Poe, revela que o intelectual norte-americano reclamava energicamente a sanção de uma lei de propriedade intelectual que pusesse termo à pirataria que infestava os estados Unidos com edições fraudulentas, já em 1830 e 1850. Ainda enamorado das imitações do neoclássico ou do pré-romântico, Poe não propunha uma originalidade absoluta, um salto no vazio. Muito pelo contrário, apresentava-se como método, acentuando a originalidade do efeito literário sobre a originalidade puramente temática.

Podemos dizer que a super-reprodutibilidade técnica, ao contrário do que possa parecer, torna-se um meio de valorização do autêntico e daquilo que é autêntico. Tal valorização não se reduz apenas ao quesito divulga-ção, mas re-significa o ato de se relacionar com a autenticidade quando essa ainda é possível. A super-reprodutibilidade gera um freqüente contato com as cópias derivadas dos originais. A valorização e a desvalorização têm uma relação direta com a aura, que se relaciona com o autêntico, substituído pela existência serial.

De acordo com Benjamin, nas décadas de 1930-40, estabelece-se uma nova relação: para as massas, a obra de arte seria objeto de diversão; para o conhecedor, objeto de devoção. Entre o final dos anos 30 e o início dos 40, começam a se avolumar em periódicos, revistas, jornais e, finalmente, em livros, as publicações do poeta brasileiro Mario Quintana (1906-1994).[ii]

Esse Baudelaire que flana pelas ruas porto-alegrenses exerce sua crítica muito particular de arte na poesia epigramática do Caderno H (1973): “Em Picasso, em certos Picassos, a boca, a face, o perfil, as orelhas rejuntam-se, não arbitrariamente e sim para formar uma harmonia nova, de maneira que o seu arreglo final não nos amedronta como um monstro, mas tranqüilizá-nos como uma obra clássica (QUINTANA, 1986, p. 102).Em sua vasta obra de crítica literária, a profª Drª Maria da Glória Bordini [iii] chama atenção à popularidade dos “quintanares”:

Leitores das mais diferentes estirpes, crianças de (pré)escola, aposentados de banco de praça, professores de português ou de química, donas-de-casa, vovós, pais-de família, jornalistas, gráficos, operários, negociantes, taxistas, motoristas, empregadas domésticas, há anos rendem-se à magia dos poemas de Mario Quintana, pelo menos depois que sua obra começou a ser difundida pelos meios de massa, como o Correio do Povo... (BORDINI, 1997, p. 7).
Das personagens do cinema, Quintana aprecia Carlitos, inclusive, dedica-lhe mais de um texto poético. Entre as estrelas, prefere Greta Garbo e, quanto aos filmes, ainda no Caderno H, presta tributos àquele que integraria o cinematográfico e o poético — 8 ½ — de Federico Fellini: “porque nossa alma é assim como ali está, com suas idades sucessivas convivendo, o acontecido e o imaginado tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade. Parece-te que estou falando de poesia:?” (QUINTANA, 1986, p. 101).

Entre seus temas, o escritor de Alegrete convoca os modernos veículos que, conforme Benjamin, substituem a narrativa pela informação. No seguinte epigrama, retirado de sua obra literária Sapato florido (1948), o sujeito poético declara: “Os verdadeiros poetas não lêem os outros poetas. Os verdadeiros poetas lêem os pequenos anúncios dos jornais” (QUINTANA, 1986, p. 57).

Leitor de Apollinaire, Baudelaire, Rimbaud, Valéry e Verlaine, dentre outros escritores franceses, o “anjo-poeta” une-se a uma nebulosa que, além de abrigá-los, inclui o romancista cubano Italo Calvino, assim como os contistas argentinos Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. O diálogo com os norte-americanos não se exclui de tal constelação, uma vez que toda ela, direta ou indiretamente, deve um pouco de seu brilho a Edgar Allan Poe. É o que se vê, e se ouve sem perder o senso, no “Soneto XVII” do poemário quintanesco A Rua dos Cataventos [iv] (1940):


Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela, amarelada...
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!
(QUINTANA, 1986, p. 13).


[i] BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica. In: BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica,Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 165-221.
[ii] Todas as citações de Quintana são retiradas da seguinte antologia comemorativa: QUINTANA, Mario. 80 anos de Poesia: Mario Quintana. Porto Alegre: Globo, 1986.
[iii] BORDINI, Maria da Glória. Imaginação Moderna e Intimidade com o Leitor. In: BARBOSA, Márcia Helena Saldanha; SCHMIDT, Simone Pereira. MARIO QUINTANA. Cadernos Porto & Vírgula, Porto Alegre, n. 14, p. 07-13, 1997.
[iv] Alguns dos sonetos que compõem A Rua dos Cataventos foram antes publicados numa revista literária da terra-natal de Quintana, denominada Ibirapuitan. Vide: COELHO, Felisberto Soares (Dir.). Ibirapuitan: Mensário de Sociedade, Literatura e Arte, Alegrete (RS), v. I-XII, 1938.