Alda Valéria de Souza Lopes
Cádia Dorneles Carús
Este ensaio, publicado em 1936, é um dos mais conhecidos e citados textos do filósofo alemão Walter Benjamin. Discute as novas potencialidades artísticas — essencialmente numa dimensão política — decorrentes da reprodutibilidade técnica.
O escritor argentino Julio Cortázar, em 1976, explanando reflexões sobre Edgar Allan Poe, revela que o intelectual norte-americano reclamava energicamente a sanção de uma lei de propriedade intelectual que pusesse termo à pirataria que infestava os estados Unidos com edições fraudulentas, já em 1830 e 1850. Ainda enamorado das imitações do neoclássico ou do pré-romântico, Poe não propunha uma originalidade absoluta, um salto no vazio. Muito pelo contrário, apresentava-se como método, acentuando a originalidade do efeito literário sobre a originalidade puramente temática.
Podemos dizer que a super-reprodutibilidade técnica, ao contrário do que possa parecer, torna-se um meio de valorização do autêntico e daquilo que é autêntico. Tal valorização não se reduz apenas ao quesito divulga-ção, mas re-significa o ato de se relacionar com a autenticidade quando essa ainda é possível. A super-reprodutibilidade gera um freqüente contato com as cópias derivadas dos originais. A valorização e a desvalorização têm uma relação direta com a aura, que se relaciona com o autêntico, substituído pela existência serial.
De acordo com Benjamin, nas décadas de 1930-40, estabelece-se uma nova relação: para as massas, a obra de arte seria objeto de diversão; para o conhecedor, objeto de devoção. Entre o final dos anos 30 e o início dos 40, começam a se avolumar em periódicos, revistas, jornais e, finalmente, em livros, as publicações do poeta brasileiro Mario Quintana (1906-1994).[ii]
Esse Baudelaire que flana pelas ruas porto-alegrenses exerce sua crítica muito particular de arte na poesia epigramática do Caderno H (1973): “Em Picasso, em certos Picassos, a boca, a face, o perfil, as orelhas rejuntam-se, não arbitrariamente e sim para formar uma harmonia nova, de maneira que o seu arreglo final não nos amedronta como um monstro, mas tranqüilizá-nos como uma obra clássica (QUINTANA, 1986, p. 102).Em sua vasta obra de crítica literária, a profª Drª Maria da Glória Bordini [iii] chama atenção à popularidade dos “quintanares”:
Leitores das mais diferentes estirpes, crianças de (pré)escola, aposentados de banco de praça, professores de português ou de química, donas-de-casa, vovós, pais-de família, jornalistas, gráficos, operários, negociantes, taxistas, motoristas, empregadas domésticas, há anos rendem-se à magia dos poemas de Mario Quintana, pelo menos depois que sua obra começou a ser difundida pelos meios de massa, como o Correio do Povo... (BORDINI, 1997, p. 7).
Entre seus temas, o escritor de Alegrete convoca os modernos veículos que, conforme Benjamin, substituem a narrativa pela informação. No seguinte epigrama, retirado de sua obra literária Sapato florido (1948), o sujeito poético declara: “Os verdadeiros poetas não lêem os outros poetas. Os verdadeiros poetas lêem os pequenos anúncios dos jornais” (QUINTANA, 1986, p. 57).
Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...
E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela, amarelada...
Como o único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!
Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!
[i] BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica. In: BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica,Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 165-221.
[ii] Todas as citações de Quintana são retiradas da seguinte antologia comemorativa: QUINTANA, Mario. 80 anos de Poesia: Mario Quintana. Porto Alegre: Globo, 1986.
[iii] BORDINI, Maria da Glória. Imaginação Moderna e Intimidade com o Leitor. In: BARBOSA, Márcia Helena Saldanha; SCHMIDT, Simone Pereira. MARIO QUINTANA. Cadernos Porto & Vírgula, Porto Alegre, n. 14, p. 07-13, 1997.
[iv] Alguns dos sonetos que compõem A Rua dos Cataventos foram antes publicados numa revista literária da terra-natal de Quintana, denominada Ibirapuitan. Vide: COELHO, Felisberto Soares (Dir.). Ibirapuitan: Mensário de Sociedade, Literatura e Arte, Alegrete (RS), v. I-XII, 1938.

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