Diálogos entre Literatura e História Brasileira Contemporânea
30 janeiro 2008
29 janeiro 2008
Alda Valéria de Souza Lopes
Cádia Dorneles Carús
Este ensaio, publicado em 1936, é um dos mais conhecidos e citados textos do filósofo alemão Walter Benjamin. Discute as novas potencialidades artísticas — essencialmente numa dimensão política — decorrentes da reprodutibilidade técnica.
O escritor argentino Julio Cortázar, em 1976, explanando reflexões sobre Edgar Allan Poe, revela que o intelectual norte-americano reclamava energicamente a sanção de uma lei de propriedade intelectual que pusesse termo à pirataria que infestava os estados Unidos com edições fraudulentas, já em 1830 e 1850. Ainda enamorado das imitações do neoclássico ou do pré-romântico, Poe não propunha uma originalidade absoluta, um salto no vazio. Muito pelo contrário, apresentava-se como método, acentuando a originalidade do efeito literário sobre a originalidade puramente temática.
Podemos dizer que a super-reprodutibilidade técnica, ao contrário do que possa parecer, torna-se um meio de valorização do autêntico e daquilo que é autêntico. Tal valorização não se reduz apenas ao quesito divulga-ção, mas re-significa o ato de se relacionar com a autenticidade quando essa ainda é possível. A super-reprodutibilidade gera um freqüente contato com as cópias derivadas dos originais. A valorização e a desvalorização têm uma relação direta com a aura, que se relaciona com o autêntico, substituído pela existência serial.
De acordo com Benjamin, nas décadas de 1930-40, estabelece-se uma nova relação: para as massas, a obra de arte seria objeto de diversão; para o conhecedor, objeto de devoção. Entre o final dos anos 30 e o início dos 40, começam a se avolumar em periódicos, revistas, jornais e, finalmente, em livros, as publicações do poeta brasileiro Mario Quintana (1906-1994).[ii]
Esse Baudelaire que flana pelas ruas porto-alegrenses exerce sua crítica muito particular de arte na poesia epigramática do Caderno H (1973): “Em Picasso, em certos Picassos, a boca, a face, o perfil, as orelhas rejuntam-se, não arbitrariamente e sim para formar uma harmonia nova, de maneira que o seu arreglo final não nos amedronta como um monstro, mas tranqüilizá-nos como uma obra clássica (QUINTANA, 1986, p. 102).Em sua vasta obra de crítica literária, a profª Drª Maria da Glória Bordini [iii] chama atenção à popularidade dos “quintanares”:
Leitores das mais diferentes estirpes, crianças de (pré)escola, aposentados de banco de praça, professores de português ou de química, donas-de-casa, vovós, pais-de família, jornalistas, gráficos, operários, negociantes, taxistas, motoristas, empregadas domésticas, há anos rendem-se à magia dos poemas de Mario Quintana, pelo menos depois que sua obra começou a ser difundida pelos meios de massa, como o Correio do Povo... (BORDINI, 1997, p. 7).
Entre seus temas, o escritor de Alegrete convoca os modernos veículos que, conforme Benjamin, substituem a narrativa pela informação. No seguinte epigrama, retirado de sua obra literária Sapato florido (1948), o sujeito poético declara: “Os verdadeiros poetas não lêem os outros poetas. Os verdadeiros poetas lêem os pequenos anúncios dos jornais” (QUINTANA, 1986, p. 57).
Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...
E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela, amarelada...
Como o único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!
Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!
[i] BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica. In: BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica,Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 165-221.
[ii] Todas as citações de Quintana são retiradas da seguinte antologia comemorativa: QUINTANA, Mario. 80 anos de Poesia: Mario Quintana. Porto Alegre: Globo, 1986.
[iii] BORDINI, Maria da Glória. Imaginação Moderna e Intimidade com o Leitor. In: BARBOSA, Márcia Helena Saldanha; SCHMIDT, Simone Pereira. MARIO QUINTANA. Cadernos Porto & Vírgula, Porto Alegre, n. 14, p. 07-13, 1997.
[iv] Alguns dos sonetos que compõem A Rua dos Cataventos foram antes publicados numa revista literária da terra-natal de Quintana, denominada Ibirapuitan. Vide: COELHO, Felisberto Soares (Dir.). Ibirapuitan: Mensário de Sociedade, Literatura e Arte, Alegrete (RS), v. I-XII, 1938.
Sônia Mariza da Silva Dotto
Italo Calvino [1] enxerga o mundo como um sistema de sistemas, em que cada sistema particular condiciona os demais e é condicionado por eles. Seu pensamento coincide com o do romancista, também italiano, Carlo Emilio Gadda que, durante sua vida, “buscou representar o mundo como um rolo, uma embrulhada, um aranzel, sem jamais atenuar-lhe a complexidade inextrincável — ou, melhor dizendo, a presença simultânea dos elementos mais heterogêneos que concorrem para a determinação de cada evento” (CALVINO, 1990, p. 121).
Calvino pensa o romance contemporâneo como enciclopédia, método de conhecimento e, principalmente, rede de conexões entre fatos, pessoas e coisas do mundo. Um jogo entre a meticulosa concepção da obra e os lances do acaso, exatidão e deformação do texto, como realiza Gadda, cujos elos infinitos entre as coisas exigiriam precisas denominações, descrições e localizações espacio-temporais. Isso se daria por meio duma consciente utilização das possibilidades do verbo, dos arranjos e combinações de sentido, das escolhas e contenções das letras e palavras carregadas de significação — paixão filosófica inspirada em Leibniz e Spinoza — que também atingiu o escritor argentino Jorge Luis Borges.
Daí ser a multiplicidade uma das propostas de Calvino para este milênio,[2] amparada no desafio da escrita, que multiplica o tempo dentro da obra, onde circulam milhares de informações simultaneamente. Essa é uma marca do atual gênero romanesco, a expressar visões pluralísticas e multifacetadas do mundo. Os múltiplos aspectos das narrativas proliferam nas diversas visões de um mesmo fato, nos variados discursos dentro de um mesmo livro, na consciência acerca das diferenças.
Entre os romancistas enciclopédicos, o escritor nascido em Santiago de Cuba menciona Flaubert, justamente por sua curiosidade infinita pelo saber humano acumulado. Diferentemente dos exemplares da literatura medieval — como a Divina comédia de Dante Alighieri — que tentavam integrar o saber humano numa ordem e numa forma de densidade estável, a narrativa ficcional da contemporaneidade nasce
da confluência e do entrechoque de uma multiplicidade de métodos interpretativos, maneiras de pensar, estilos de expressão. Mesmo que o projeto geral tenha sido minuciosamente estudado, o que conta não é o seu encerrar-se numa figura harmonioso, mas a força centrífuga que dele se liberta, a pluralidade das linguagens como garantia de uma verdade que não seja parcial (CALVINO, 1990, p. 131).
Poucos narradores tiveram uma afinidade tão profunda com as crônicas, os contos de fadas e as lendas, quer dizer, com as narrativas populares, como Leskov. Suas obras transmitem as histórias vindas da experiência. Por intermédio desse romancista, Benjamin exemplifica o papel do narrador, como alguém que sabe dar conselhos, e não informações, as quais sempre vêm ligadas à idéia de algo novo a ser contado, mas que elimina a narrativa e seus encantos.
A tipologia de Benjamin quanto aos narradores repousa na idéia de que o narrador não está de fato presente entre nós, em sua atualidade viva. Ele seria algo de distante, substituído pela instância narrativa do romance, o qual não se mostra significativo por descrever pedagogicamente “um destino alheio, mas porque esse destino alheio, graças à chama que o consome, pode dar-nos o que não podemos encontrar em nosso próprio destino. O que seduz o leitor no romance é a esperança de aquecer sua vida gelada com a morte descrita no livro” (BENJAMIN, 1994, p. 214).
Embora reunidos na mesma Escola de Frankfurt, também conhecida por Teoria Crítica, Benjamin várias vezes diverge de Theodor Adorno.[5] Um das possíveis divergências pode ser exemplifica pela seguinte citação: “Se o romance quiser permanecer fiel à sua herança realista e dizer como realmente as coisas são, então ele precisa renunciar a um realismo que, na medida em que reproduz a fachada, apenas a auxilia na produção do engodo” (ADORNO, 2003, p. 57).
Conforme o texto de Adorno, a pretensão de quem narra o romance liga-se a um mundo essencialmente implicado ao processo moderno de individualização, transformando as qualidades humanas em alienações universais. Para Benjamin, os grandes narradores parecem fundar um espaço interior, configurado na experiência coletiva, e que lhes pouparia o passo em falso no mundo estranho. Assim, o ato de narrar, no sentido que lhe empresta Leskov, seria uma forma de artesanato, a destacar os valores autênticos da vida no campo, no mar e na pequena cidade.
A relação artesanal representa-se nas personagens bondosas ou malandras, em realidades concretas, porém, sob auréolas do mito e do mítico. Segundo Benjamin, contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo; ela não se conserva, do mesmo modo que as histórias, quando se perde a experiência. A narrativa estaria em vias de extinção porque ninguém mais tece ou fia ouvindo casos, lendas, narrações de acontecimentos vividos. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente.
Parodiando Benjamin, descrever Leskov, Dostoiévski, Borges, Valéry, Musil, Gadda e Flaubert como narradores não significa trazê-los para mais perto de nossa realidade, mas aumentar a distância que nos separa deles. Seus traços narrativos, grandes e simples, aparecem num apropriado distanciamento dos choques da modernidade. Essas características fazem-se presentes tanto em Calvino, Benjamin e Bakhtin quanto em suas traduções, leituras, discussões e releituras — processadas no Brasil contemporâneo — por críticos literários, historiadores ou teóricos da literatura e leitores-empíricos, à maneira do que acontece com “Poe, como em Stevenson. O narrador é a figura na qual o justo se encontra consigo mesmo” (BENJAMIN, 1994, p. 221).
[1] Cf. CALVINO, Italo. “Multiplicidade”. In: CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. 3. ed. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 115-138.
[2] “‘Leveza’, ‘Rapidez’, ‘Exatidão’, ‘Visibilidade’ e ‘Multiplicidade’ são cinco conferências que Calvino havia preparado para a Universidade de Harvard e que, devido à morte súbita do autor, nunca foram proferidas. São também cinco das qualidades da escritura (uma sexta, a Consistência, seria o tema da última conferência, jamais escrita) que Calvino teria desejado transmitir à humanidade do milênio que estava por vir.” EDITORES. Paratexto não titulado. In: CALVINO, 1990, primeira aba.
[3] Cf. BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. 3. ed. Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.
[4] As informações sobre Leskov são retiradas de: BENJAMIN, Walter. “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 197-221.
[5] ADORNO, Theodor. “Posição do narrador no romance contemporâneo”. In: ADORNO, Theodor. Notas de literatura I. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2003. p. 55-63.
Liliane dos Anjos
Neiva Bonfanti Rosa
O tema central da obra de Mikhail Bakhtin [1] é um novo gênero literário, marcado pela presença de várias vozes, que ressoam no texto e não se sujeitam a um narrador centralizador, como acontece com o romance tradicional monofônico. Trata-se então do romance polifônico ou carnavalesco. O elemento cômico-sério aparece nessa teoria e Bakhtin deixa patente que não é o cômico que se torna sério, mas o contrário. O sério é que se torna cômico, na medida em que os símbolos oficiais são destronados de seu pedestal, postos em contigüidade com manifestações e símbolos culturais populares.
Segundo Bakhtin, Dostoiévski é o criador do romance polifônico, que substitui a unicidade de um pensante pela multiplicidade de sujeitos, vozes e olhares sobre o mundo. O teórico afirma que, no escritor russo, a idéia enquanto objeto de representação ocupa importante posição, mas não é ela a heroína de seus romances. Seu herói é o ser humano e o romancista representa “o homem no homem”. Para ele, não há idéias, pensamentos e teses que tenham existência própria.
Por isso, representa a interação de consciências no campo das idéias, onde essas passam a ter vida, ou seja, a consciência nunca se basta por si mesma. Podemos dizer que ele apresenta em forma artística uma espécie de sociologia das consciências no plano da coexistência. Da mesma forma, as várias consciências também são perceptíveis no artigo de Marcel Proust para analisar a obra de Jacques Emile Blanche. [2] Nele, as várias vozes sociais se defrontam, se entrelaçam, manifestando diferentes pontos de vista:
Essa Auteil de minha infância — de minha infância e de sua juventude — evocada por Jacques Blanche, compreendo que ele se reporte a ela com prazer como a tudo o que emigrou do visível ao invisível, a tudo o que, convertido em recordações, confere um tipo de mais –valia ao nosso pensamento... (PROUST, 1994, p. 41).
Tudo isso que, em páginas que são maravilhas de inteligência e melancolia, Jacques Blanche diz a propósito de Manet — a quem seus amigos achavam encantador, mas não levavam a sério, não o ‘tinham por tão capaz’ — eu o vi produzir-se para Blanche (PROUST, 1994, p. 42).
Calma, Jaques, não o atormente, não o excite. recomponha-se, meu filho, procure ficar calmo, ele não pensa sequer em uma palavra do que diz: beba um pouco de água fresca, em pequenos goles, contando até cem (PROUST, 1994, p. 44).
Como traço característico da obra de Dostoiévski, percebemos a sua vontade artística na multiplicidade de vozes. Também seria possível determinar com exatidão a imensa autonomia e a plenivalência de cada voz. As vozes são “convicções ou pontos de vista acerca do mundo” LUNATCHARSKY (apud BAKHTIN 2002, p. 33) e os romances, diálogos esplendidamente construídos, nos quais a independência das vozes particulares é excitante. A compreensão precisa do “psicologismo”, como visão realista-objetiva da coletividade contraditória das psiques dos outros leva Kirpótin à correta compreensão da polifonia do escritor russo. Suas contradições concretas e a personalidade biológica e social, sua dicotomia ideológica, são incorporadas no processo de construção do romance polifônico:
a história de cada ‘alma’ individual é dada... em Dostoiévski não de modo isolado mas juntamente com a descrição das inquietações psicológicas de muitas outras individualidades [...] a narração da primeira pessoa, na forma de confissão, ou da pessoa do autor-narrador, seja como for, vemos que o autor parte da premissa da isonomia das personagens coexistentes, que experimentam inquietações. Seu mundo é o mundo da multiplicidade de psicologias que existem objetivamente e estão em interação, fato que, na interpretação dos processos psicológicos, exclui o subjetivismo tão próprio da decadência burguesa. (KIRPÓTIN apud BAKHTIN, 2002,p.38).
Dostoévski tem a capacidade de auscultar reações dialógicas em toda parte, em todas as manifestações da vida humana consciente e racional. Para ele, onde começa a consciência, começa o diálogo. Em seu ensaio sobre a obra de Blanche, Proust mostra que, assim como nos romances do escritor russo, o pintor francês ausculta reações dialógicas em toda parte, em todas as manifestações da vida humana, consciente e racional, percebendo que onde começa a consciência, começa o diálogo.
O defeito do Jacques Blanche crítico é refazer o inverso do trajeto que o artista cumpre para se realizar: é explicar o Fantin ou Manet verdadeiro, aquele que só encontramos em sua obra, com o auxílio do homem perecível, semelhante a seus contemporâneos, cheios de defeitos, a quem se ligava uma alma original, contra quem ela protestava, ele quem tentava se separar, libertar-se por meio do trabalho (PROUST, 1994, p. 52).
A perspectiva sob a qual Blanche se posiciona, nem sempre na referida obra, não é o verdadeiro ponto de vista da arte, mas o da história: “Apenas enquanto Saint-Beuve põe em prática esse ponto de vista realmente, o que faz com que ele classifique bem amiúde os escritores de sua época [...], Jacques Blanche só o adota por um instante, para multiplicar os contrastes” (PROUST, 1994, p.54 ). Ao contrário de Saint-Beuve, os escritores e pintores que Blanche admira mais tarde serão grandes figuras no mundo artístico, a exemplo de Manet e Pablo Picasso.
Todas essas vozes, cantando diversamente o mesmo tema, constituem a polifonia bakhtiniana, que desvenda o multifacetado da existência e a complexidade dos sofrimentos humanos. Para Dostoiévski, o mundo monológico uno da consciência do autor se transforma em “elemento do todo; aquilo que era toda a realidade torna-se aqui um aspecto da realidade; aquilo que ligava o todo — a série do enredo e da pragmática e o estilo e o tom pessoal — torna-se aqui momento subordinado” (BAKHTIN, 2002, p. 45).
Um conflito entre a inconclusibilidade interna das personagens e do diálogo e a perfeição externa do texto resguardam os princípios do romance polifônico. O diálogo se adentra no interior do romance, tornando-o bivocal, penetrando em cada gesto, em cada movimento mímico do herói, e constituindo o micro-diálogo, que determina as particularidades do estilo. Blanche também deixa suas marcas na história literária; demonstra criticamente o que pensa, vindo a ser admirado como pintor e escritor. Seus personagens traduzem as inquietações da alma humana e contradições de uma sociedade cujo padrão de beleza está muito aquém do que o escritor–pintor considera.A noção de polifonia, observada por Bakhtin na obra de Dostoiévski, guarda semelhanças com a proposta de “multiplicidade’, defendida por Italo Calvino. [3] Ambas dialogam com a obra de Mario Quintana, caracterizada por apresentar uma “diversidade sempre fiel a si mesma”, [4] uma vez que o poeta alegretense mostra-se sempre o mesmo
na sua multiplicidade de faces. Devido a isso, os temas que anuncia em seus primeiros livros mantêm-se inalterados até os últimos, numa fidelidade digna de nota. E, explorando universos imaginários ou denunciando o que acontece à frente de sua janela, é sempre o individualista seguro de suas posições, mas suficientemente autêntico e generoso, não hesitando em empregar sua palavra em prol de um mundo mais justo e harmônico (ZILBERMAN, 2001, p. 440).
Diversa é a carreira de Quintana, como jornalista, cronista do cotidiano e tradutor. É ele quem traduz para a língua portuguesa os quatro primeiros volumes do romance de Proust: À la recherche du temps perdu. Seus “quintanares” deixam margens para variadas interpretações, como a memória proustiana ou a identidade do sujeito moderno. No soneto “Auto-Retrato”, [5] por exemplo, buscando “sua eterna semelhança, ele diz que se pinta nuvem, se pinta árvore, se pinta coisas já esquecidas ou ainda inexistentes, mas conclui que, afinal, só restará de sua lida Um desenho de criança.../Corrigido por um louco!” (BECKER, 1997, p. 51). [6]
[1] QUINTANA, Mario. Auto-retrato. In: QUINTANA, Mario. Apontamentos de história sobrenatural. Rio de Janeiro: Globo, 1987. p. 22.
[2] BECKER, Paulo. O poeta pintor. In: BARBOSA, Márcia Helena Saldanha; SCHMIDT, Simone Pereira. MARIO QUINTANA. Cadernos Porto & Vírgula, Porto Alegre, n. 14, p. 49-53, 1997.
[3] CALVINO, Italo. Multiplicidade. In: CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 115-138.
[4] Cf. ZILBERMAN, Regina. Mario Quintana: Diversidade sempre fiel a si mesma. Revista de Psicanálise, Porto Alegre, v. 8, n. 3, p. 419-440, 2001.
[5] QUINTANA, Mario. Auto-retrato. In: QUINTANA, Mario. Apontamentos de história sobrenatural. Rio de Janeiro: Globo, 1987. p. 22.
PINTURAS DE JACQUES-EMILE BLANCHE
Marcel Proust (1871-1922)
La princesse Jean de Broglie
Para Maria da Glória Bordini, [i] Georg Lukács foi um dos pensadores marxistas mais discutidos na cultura ocidental: sua obra reflete as mudanças verificadas em seu percurso intelectual. Mesmo ao guardar certa distância das teorias formalistas de extração kantiana, o filósofo húngaro mostra um interesse pelas questões formais. Aparentemente, dava ênfase ao “estudo de conteúdo” nas críticas sobre o realismo. Isso é explicável, já que aderiu ao marxismo em 1918 e, assim, valorizava o humanismo “do Século das luzes e do Romantismo, crente na potência do espírito para a compreensão racional e intuitiva do mundo” (p. 34).
Ora, a concepção de forma que perpassa toda a Teoria do Romance é basicamente hegeliana: trata-se de construir um todo unitário, através da Idéia, acolhendo contradições e superando-as dialeticamente no trabalho criador, que se resume na mimese da experiência histórica, despojada de seus absurdos por uma consciência em busca de sentido (p. 47-48).

Maternidade — Pedro Astapenco
O que hoje se entende por forma, ou melhor, por estruturação, é uma rede de relações entre elementos internos de uma obra literária e também externos a ela que, em feixes opositivos, sem centramento, produzem a significação como um processo sempre em construção, dependendo das interações entre autor/leitor, sociedade/indivíduo, história/História [...] A utopia de Lukács é de que a arte literária devolveria ao público a imagem de si mesmo dentro da luta de classes, trabalhada pela fantasia que reconstitui as nuanças da vida num quadro mais nítido do que o da existência em si, porque mostra os conflitos e não os esconde sob o véu da ideologia alienante. A obra literária faria, ao restituir, na totalidade interna do texto, a racionalidade da História, o trabalho de desalienação, requisito essencial para a tomada de posição dos leitores e sua reação à reificação e nulificação capitalistas ( p. 58-59).
Bonjour Monsieur Lautrec - Danúbio Gonçalves
Nem tudo são perdas, entretanto. Na trajetória intelectual de Lukács, houve o encontro de Lacy Osório com Danúbio Vilamil Gonçalves, ilustrador dos versos daquele poeta socialista. A obra de Lacy tem o colorido das tintas e dos pincéis, como se pode visualizar neste fragmento de “Ibirapuitã”,[iii] uma espécie de mural realista, telúrico, memorialista, enfocando seu “pequeno burgo”:
que és um índio minuano negaceando
quando o vento sussurra nos caminhos.
Se o sonho da memória não me engana
vens num gosto de mel de lixiguana
emponchado das árvores, dos ninhos.
Cheiro forte de ervas curandeiras
no coaradouro verde do campestre.
E os vestidos de chita e a flor silvestre
anilados no suor das lavadeiras.
As chuvas encortinam o sol poente
e lá na tarde branca do crescente
que faz o arco-íris quando acampa?
faz um rio multicor entre os capões
tomar porre de nuvens e trovões
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
ASTAPENCO, Pedro Miguel. “Maternidad”. In: REVISTA DIGITAL MONTEVIDEO EN LA MANO. Disponível em:<http://www.montevideo.gub.uy/museoblanes/e_realismosocial.htm>. Acesso em: 05 jan. 2008.
GONÇAVES, Danúbio Vilamil. “Sátira ideológica”. In: TREVISAN, Cleusa; M23, Desenvolvimento de Sistemas Ltda. Artista NET. Disponível em: <http://www.artistanet.com.br/site/artista.asp?ArtistaID=747160&TroncoID=AOBRAS>. Acesso em: 18 dez. 2007.
KRIJATZKI, Wladimir Gawriilowitsch. “El primero tractor”. IN: REALISMO SOCIALISTA. Disponível em: <http://gl.wikipedia.org/wiki/Realismo_socialista>. Acesso em: 05 jan. 2008.
MONET, Claude. “Paseo con sombrilla o la señora Monet con su hijo”. In: PETERS, Katrin. El Portal de la Pintura. Disponível em: <http://www.kathrinpeters.com/Pintura/GrandeMaestros/Biografias/MonetClaudeOscar/index2.htm>. Acesso em: 18 dez. 2007.
[iii] OSÓRIO, Lacy. “Ibirapuitã”. In: OSÓRIO, Lacy. Poemas que o Tempo Semeou. Porto Alegre: Tapa, 1968. p. 32.
